Por Dra. Luciana Gasques, médica dermatologista
Sua unha descama em camadas, quebra antes de crescer ou fica com pequenas fissuras longitudinais? Se a resposta é sim, provavelmente você já experimentou alguma “base milagrosa” ou considerou tomar vitaminas por conta própria. Mas existe uma informação que vale conhecer antes de qualquer compra: unhas frágeis não significam necessariamente falta de vitaminas.
Na maioria das vezes, o problema está relacionado à própria estrutura da lâmina ungueal ou ao excesso de contato com água, produtos de limpeza, removedores, acetona, esmaltação frequente, alongamentos, gel, acrilatos ou pequenos traumas repetidos. A chamada síndrome das unhas frágeis pode atingir até aproximadamente 20% da população e é especialmente frequente em mulheres, segundo uma revisão publicada na revista Dermatology and Therapy.
Ela se manifesta principalmente de duas formas: a onicosquizia, quando a ponta da unha descama em camadas, e a onicorrexe, quando aparecem linhas, fissuras ou rachaduras longitudinais. O tratamento começa identificando se existe uma causa secundária e reduzindo os fatores que danificam repetidamente a unha.
Por que a unha fica fraca?
A unha é formada principalmente por queratina e contém uma quantidade importante de água. Curiosamente, tanto perder água demais quanto ficar repetidamente molhando e secando as mãos pode alterar suas propriedades físicas. É por isso que situações aparentemente inocentes pioram muito a fragilidade: lavar louça várias vezes ao dia, manipular produtos químicos sem luvas, usar acetona com frequência, retirar esmalte em gel de forma traumática, lixar excessivamente a superfície da unha ou retirar constantemente a cutícula. A exposição repetitiva à água, detergentes e traumas figura entre os fatores mais citados na literatura dermatológica.
Hidratante realmente funciona na unha?
Sim — e esse é provavelmente um dos cuidados mais subestimados. A literatura recomenda hidratantes e emolientes como parte do tratamento das unhas frágeis. Ingredientes como glicerina, propilenoglicol, petrolato, ureia e alfa-hidroxiácidos, entre eles o ácido lático, podem ajudar a aumentar a retenção de água e melhorar as propriedades da lâmina ungueal.
A ureia merece atenção especial. Em concentrações próximas de 10%, atua predominantemente como hidratante. Em concentrações maiores, passa a apresentar efeito queratolítico — razão pela qual a concentração precisa ser escolhida de acordo com o problema que estamos tratando. Para unhas simplesmente frágeis, finas e descamativas, o objetivo é melhorar hidratação, flexibilidade e proteção, não promover lixamento químico.
Uma fórmula manipulada pode ajudar?
Em determinados pacientes, sim. Uma estratégia que utilizo é associar agentes hidratantes e umectantes em uma base adequada para a unha e a região periungueal — combinando, por exemplo, ureia, ácido lático e pantenol. A concentração, o veículo e a frequência precisam ser ajustados ao diagnóstico individual. Em pacientes com dermatite, fissuras periungueais ou maior sensibilidade, os ácidos podem precisar de redução ou até ser retirados. A prescrição é sempre personalizada após avaliação presencial.
E os fortalecedores vendidos prontos?
Existem algumas tecnologias interessantes disponíveis no mercado. O ISDIN Si-Nails contém ácido hialurônico catiônico, derivados de silício e Pistacia lentiscus, além de agentes formadores de filme. A proposta é aumentar hidratação e resistência da unha; é importante observar, porém, que parte dos dados clínicos divulgados provém de estudos internos do fabricante, e não de grandes ensaios clínicos independentes.
O Kerasal Multi-Purpose Nail Repair combina ureia, ácido lático, glicerina e propilenoglicol — ingredientes muito semelhantes aos utilizados em formulações dermatológicas voltadas à hidratação da lâmina ungueal. Uma preparação com ureia, propilenoglicol e ácido lático foi estudada em ensaio clínico randomizado, embora naquele contexto as unhas avaliadas apresentavam infecção fúngica; portanto, não é possível simplesmente extrapolar os resultados para qualquer unha frágil.
Uma tecnologia com literatura publicada é o hidroxipropil-quitosano, presente em alguns lacquers ungueais. Em um estudo randomizado com 50 indivíduos com síndrome das unhas frágeis, o uso durante quatro meses resultou em redução clinicamente relevante no escore de distrofia ungueal. É uma evidência interessante, embora ainda relativamente pequena — estudos maiores são necessários para definir qual produto é superior.
Biotina: toda pessoa com unha fraca precisa?
Não. Esse talvez seja um dos maiores mitos quando falamos de unhas. Existem estudos antigos sugerindo benefício da biotina em unhas frágeis, mas a qualidade geral dessas evidências é limitada: amostras pequenas, ausência de bons grupos-controle e metodologias heterogêneas — limitações destacadas pela própria revisão sobre unhas frágeis. Além disso, doses elevadas de biotina podem interferir em determinados exames laboratoriais. Antes de transformar a biotina em “vitamina oficial da unha”, vale investigar a causa real da fragilidade.
Cuidado com o excesso de endurecedores
Uma unha saudável não precisa ser simplesmente mais dura. Ela precisa ter dureza e flexibilidade adequadas. Alguns endurecedores tradicionais utilizam substâncias relacionadas ao formaldeído e podem provocar dermatite de contato e até alterações ungueais em indivíduos suscetíveis. Cosméticos para unhas também podem conter outros sensibilizantes importantes: uma revisão recente destacou dermatite alérgica relacionada principalmente aos acrilatos, especialmente em procedimentos de gel e unhas artificiais, além de resinas como a tolueno-sulfonamida-formaldeído presentes em esmaltes convencionais.
Quando a unha fraca precisa ser investigada?
Quando a alteração é persistente, muito intensa, surgiu de repente ou envolve apenas algumas unhas, precisamos pensar além de “unha fraca”. Entre os diagnósticos que podem precisar ser considerados estão deficiência de ferro, alterações tireoidianas, psoríase ungueal, líquen plano, dermatites, onicomicose, alterações vasculares, doenças sistêmicas, efeito de medicamentos e trauma repetitivo. E existe uma regra especialmente importante: nem toda unha amarelada, descolada ou grossa é micose. O diagnóstico correto vem antes de qualquer tratamento.
Minha sugestão prática começa pelo básico: reduzir acetona e procedimentos agressivos, evitar retirar mecanicamente gel ou alongamento, usar luvas para atividades domésticas, hidratar unhas e cutículas todos os dias e escolher um tratamento tópico de acordo com o tipo de alteração. E, principalmente, se não houver melhora, investigar por que aquela unha está quebrando. Porque unha fraca não é um diagnóstico — é um sinal.
Cuidar da saúde das unhas exige o mesmo olhar que dedicamos à pele: antes de escolher um produto, é importante entender o que está acontecendo por baixo do esmalte. A ciência já oferece ferramentas eficazes; cabe ao dermatologista ajudar a escolher a certa para cada caso.
Agende sua avaliação para investigar o seu caso com segurança.
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Dra. Luciana Gasques, médica dermatologista.
Para leitura completa dos artigos: 1. Colombo VE, et al. Pathogenesis, Clinical Signs and Treatment Recommendations in Brittle Nails: A Review. Dermatol Ther (Heidelb). 2020;10:15-27. PMID: 31749091. — 2. Chiavetta A, Mazzurco S, Secolo MP, Tomarchio G, Milani M. Treatment of brittle nail with a hydroxypropyl chitosan-based lacquer, alone or in combination with oral biotin: a randomized, assessor-blinded trial. Dermatol Ther. 2019;32(5):e13028. DOI: 10.1111/dth.13028. — 3. Emtestam L, et al. Treatment of distal subungual onychomycosis with a topical preparation of urea, propylene glycol and lactic acid: results of a 24-week, double-blind, placebo-controlled study. Mycoses. 2012. PMID: 22681227. — 4. Hafner MFS, et al. Allergic contact dermatitis to toluene-sulfonamide-formaldehyde resin: still relevant? An Bras Dermatol. 2024. PMID: 38383263.
