Por Dra. Luciana Gasques, médica dermatologista
É muito comum ouvir no consultório a seguinte frase: “Doutora, meu cabelo começou a cair por causa da anestesia.” A associação parece fazer sentido. Afinal, a queda costuma aparecer alguns meses após uma cirurgia, e a anestesia é um dos momentos mais marcantes de toda a experiência cirúrgica.
Mas será que ela é realmente a responsável? A resposta mais honesta, baseada nas evidências disponíveis, é: provavelmente não de forma isolada. Nos últimos anos, diversos estudos vêm mostrando que o eflúvio telógeno pós-operatório é um fenômeno muito mais complexo e multifatorial do que simplesmente um efeito da anestesia.
O que é o eflúvio telógeno agudo?
O eflúvio telógeno agudo é uma forma de queda difusa dos cabelos causada por uma alteração temporária do ciclo capilar. Em condições normais, cerca de 85 a 90% dos fios encontram-se na fase de crescimento, chamada fase anágena, enquanto uma pequena parcela permanece em repouso, na fase telógena. Quando o organismo sofre um grande estresse fisiológico, um número muito maior de folículos encerra precocemente a fase de crescimento e entra em repouso. Após completar esse ciclo, esses fios são eliminados simultaneamente, produzindo uma queda intensa.
Por isso, o cabelo não cai no dia da cirurgia. A queda geralmente começa entre dois e quatro meses após o evento desencadeante — exatamente o tempo necessário para que o folículo percorra as etapas do ciclo capilar até a eliminação do fio. Na maioria dos pacientes, o quadro dura menos de seis meses e é considerado autolimitado.
Por que a cirurgia pode provocar queda de cabelo?
Uma cirurgia representa muito mais do que um procedimento anestésico. Ela desencadeia uma série de respostas fisiológicas que ocorrem simultaneamente e que são percebidas pelo folículo piloso como um grande estresse metabólico, entre elas a resposta inflamatória sistêmica necessária para a cicatrização, o trauma cirúrgico em si, a dor, o estresse físico e emocional, alterações hormonais e metabólicas, sangramento, hipotensão, infecções, febre e, eventualmente, internação prolongada.
Além disso, muitos pacientes apresentam fatores adicionais que potencializam o risco, como perda rápida de peso, restrição calórica, ingestão insuficiente de proteínas, deficiência de ferro, zinco ou folato, alterações da função tireoidiana, início ou suspensão de medicamentos e doenças sistêmicas que motivaram a própria cirurgia. Na prática, raramente existe apenas um único gatilho.
Afinal, a anestesia causa queda de cabelo?
Essa é justamente a pergunta que motivou uma revisão narrativa publicada em 2026 na revista Dermatology and Therapy. Após revisar a literatura disponível, os autores concluíram que não existe evidência robusta capaz de demonstrar que um anestésico específico provoque eflúvio telógeno de forma isolada.
Isso não significa que a anestesia seja completamente irrelevante. Ela faz parte do contexto fisiológico da cirurgia e pode contribuir para a resposta global ao estresse. Entretanto, atribuir a queda exclusivamente à anestesia simplifica de forma excessiva um processo biologicamente complexo. Em outras palavras, o folículo piloso não responde apenas ao anestésico — ele responde ao conjunto de agressões que o organismo enfrenta durante todo o período perioperatório.
E quando a queda aparece apenas em uma região da cabeça?
Nem toda perda de cabelo após uma cirurgia corresponde ao eflúvio telógeno. Existe outra condição chamada alopecia por pressão, causada pela compressão prolongada do couro cabeludo durante procedimentos cirúrgicos longos. Ao contrário do eflúvio, que provoca uma queda difusa, a alopecia por pressão costuma produzir uma placa localizada, geralmente na região occipital, podendo surgir mais precocemente e ser acompanhada de dor, edema, sensibilidade ou formação de crostas. Embora sejam condições distintas, ambas podem ocorrer simultaneamente no mesmo paciente.
É possível prevenir o eflúvio pós-operatório?
Até o momento, a resposta é não. Não existe vitamina, medicamento ou protocolo capaz de impedir de forma comprovada o aparecimento do eflúvio telógeno após uma cirurgia. Por isso, promessas de “blindagem capilar” antes de procedimentos cirúrgicos não encontram respaldo na literatura científica.
O que a medicina baseada em evidências recomenda é outra abordagem: reduzir os fatores modificáveis. Isso inclui corrigir deficiências nutricionais previamente existentes, garantir ingestão adequada de proteínas e calorias no pós-operatório, evitar dietas extremamente restritivas, controlar doenças sistêmicas — especialmente alterações da tireoide —, tratar infecções e complicações cirúrgicas e acompanhar de perto pacientes submetidos a perda de peso importante. Corrigir uma deficiência é uma conduta baseada em evidências. Suplementar indiscriminadamente não é.
Biotina e minoxidil: o que a ciência diz?
Apesar de extremamente popular, a biotina não demonstrou benefício consistente na prevenção ou no tratamento do eflúvio telógeno em indivíduos sem deficiência comprovada. Além disso, seu uso em doses elevadas pode interferir na interpretação de exames laboratoriais importantes, incluindo hormônios tireoidianos, marcadores cardíacos e diversos imunoensaios.
O minoxidil, por sua vez, pode ser útil em situações específicas — especialmente quando existe alopecia androgenética associada ou quando a recuperação do volume capilar ocorre de forma mais lenta. Entretanto, não há evidências robustas de que seu uso previna o eflúvio telógeno agudo pós-operatório. Seu papel deve ser avaliado de forma individualizada em consulta dermatológica.
O prognóstico costuma ser bom
A boa notícia é que o eflúvio telógeno pós-operatório é, na maioria dos casos, reversível. À medida que o organismo supera o estresse cirúrgico, novos fios entram novamente em fase de crescimento. É importante lembrar, porém, que existe uma diferença entre o cabelo voltar a crescer e o paciente recuperar o volume visual. Os fios precisam de meses para atingir comprimento suficiente e preencher novamente o couro cabeludo. Por isso, a percepção de melhora costuma ser mais lenta do que o fim da queda em si.
Culpar exclusivamente a anestesia pela queda de cabelo após uma cirurgia não encontra respaldo nas evidências científicas atuais. O eflúvio telógeno pós-operatório resulta da interação entre inflamação, trauma cirúrgico, alterações metabólicas, estado nutricional, doenças associadas e diversos outros fatores que atuam simultaneamente sobre o ciclo capilar. Na medicina, respostas simples costumam ser confortáveis — mas compreender a fisiologia quase sempre exige aceitar que os fenômenos biológicos são multifatoriais, e que o cuidado precisa partir dessa complexidade.
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Dra. Luciana Gasques, médica dermatologista.
Para leitura completa do artigo: Poniatowska O, et al. Exploring the Potential Links between Telogen Effluvium, Alopecia Areata, Pressure-Induced Alopecia, and General Anesthesia: A Narrative Review. Dermatology and Therapy. 2026;16:823-832.
