Por Dra. Luciana Gasques, médica dermatologista (dermatologia estética)
Uma das perguntas que mais chega ao consultório nos últimos tempos é direta: “Sculptra ou Radiesse, qual é melhor?” A resposta, porém, não começa pelo nome do produto. Começa pela anatomia de quem está sentado à frente.
Essa discussão ganhou ainda mais relevância com o aumento do uso de medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes. O emagrecimento significativo pode modificar bastante a aparência do rosto, e estudos publicados recentemente começaram a investigar exatamente como tratar essas alterações.
Se você está passando por esse processo ou acompanha alguém que está, este artigo organiza o que a ciência já sabe, o que ainda não sabe, e por que a avaliação individualizada continua sendo insubstituível.
O que acontece com o rosto quando emagrecemos muito?
O rosto possui diferentes compartimentos de gordura, superficiais e profundos, que participam do contorno e da sustentação facial. Quando ocorre uma perda importante de peso, esses compartimentos também podem diminuir. Uma revisão publicada por Frank e colaboradores no Dermatologic Surgery em 2026 analisou as alterações anatômicas observadas após o emagrecimento associado ao uso de agonistas do receptor de GLP-1 e descreveu que as mudanças podem envolver diferentes planos da face, com redução dos compartimentos de gordura, perda de suporte profundo, maior flacidez da pele e alteração dos contornos faciais — com a região média da face sendo particularmente afetada.
É por isso que algumas pessoas percebem o rosto mais “esvaziado”, maior profundidade das olheiras, perda do contorno das bochechas, flacidez e linhas mais aparentes. Esse conjunto de alterações ficou conhecido popularmente como “Ozempic face” — um nome que, como veremos, pode gerar interpretações equivocadas.
Os medicamentos GLP-1 envelhecem o rosto?
Não é adequado afirmar simplesmente que esses medicamentos “envelhecem a pele”. Grande parte das alterações observadas parece estar relacionada ao emagrecimento em si e às modificações anatômicas decorrentes da perda de peso, especialmente quando ela é expressiva. Portanto, o fenômeno não deve ser interpretado como uma toxicidade específica do medicamento sobre o rosto.
Essa distinção é importante porque emagrecer traz benefícios relevantes à saúde quando existe indicação médica. A discussão estética não deve transformar um tratamento eficaz em vilão. A pergunta que passa a fazer sentido é outra: se a anatomia facial mudou durante o emagrecimento, qual é a melhor maneira de tratá-la?
Sculptra e Radiesse: são a mesma coisa?
Os dois são frequentemente colocados na mesma categoria dos chamados bioestimuladores de colágeno, mas não são o mesmo produto. Sculptra é o nome comercial de um injetável à base de ácido poli-L-láctico (PLLA). Após a aplicação, suas partículas desencadeiam uma resposta tecidual controlada que resulta, ao longo do tempo, em remodelação da matriz extracelular e produção de colágeno. O efeito é progressivo: o objetivo não é preencher um espaço imediatamente, mas promover uma modificação gradual das características do tecido.
Radiesse contém hidroxiapatita de cálcio (CaHA) suspensa em um gel carreador. Também apresenta propriedades bioestimuladoras, com evidências de estímulo à produção de componentes da matriz extracelular. Dependendo da diluição e do plano de aplicação, pode ser empregado com objetivos diferentes, do suporte e contorno à melhora da qualidade cutânea. Os dois podem estimular colágeno, mas não são produtos equivalentes — e essa diferença importa na hora da indicação.
O que os estudos mais recentes mostram sobre Sculptra em pacientes que usam GLP-1?
Em 2026, Franco e colaboradores publicaram no Dermatologic Surgery uma revisão especificamente sobre o uso do ácido poli-L-láctico na população em tratamento com agonistas do receptor de GLP-1, discutindo o PLLA como possível estratégia regenerativa diante das alterações faciais relacionadas à perda de peso. No mesmo ano, Frank e colaboradores propuseram uma abordagem multimodal: bioestimulação precoce associada, quando necessária, à reposição seletiva de volume com ácido hialurônico — em vez de esperar o rosto perder muito volume para simplesmente preencher o que desapareceu.
Lorenc e colaboradores foram além e realizaram um estudo multicêntrico e aberto com 41 pacientes que apresentavam alterações faciais após perda de peso associada aos agonistas de GLP-1. Os participantes receberam de duas a três sessões de PLLA, associadas a sessões de preenchedores de ácido hialurônico na região média da face, com acompanhamento de até nove meses após a última aplicação. Os resultados incluíram melhora do contorno facial e da qualidade da pele. Um dado particularmente interessante apareceu nas avaliações instrumentais: o PLLA esteve associado a aumento significativo da radiância e da espessura da pele, enquanto o ácido hialurônico apresentou melhora objetiva da hidratação cutânea — reforçando que diferentes injetáveis podem desempenhar funções distintas dentro do mesmo plano terapêutico.
Então Sculptra é comprovadamente melhor que Radiesse para quem usa Ozempic ou Mounjaro?
Não. Essa é provavelmente a informação mais importante deste artigo. Até o momento, esses trabalhos não compararam diretamente Sculptra e Radiesse em pacientes submetidos ao emagrecimento com agonistas de GLP-1. O que se pode afirmar é diferente: atualmente existe evidência publicada especificamente avaliando o PLLA nessa população, enquanto a evidência específica para a CaHA nesse contexto é mais limitada. Isso não significa que Radiesse seja ineficaz — e muito menos que exista evidência de inferioridade. Ausência de evidência específica não é evidência de inferioridade. Para responder cientificamente se um produto é superior ao outro nesse cenário, seriam necessários ensaios clínicos randomizados comparando os dois em populações semelhantes. Esses dados ainda não estão disponíveis.
Como a escolha deve ser feita na prática?
Antes de escolher um bioestimulador, é preciso avaliar qual alteração precisa ser tratada. Um paciente pode apresentar principalmente flacidez e piora da qualidade cutânea. Outro pode ter grande perda de volume nas bochechas. Outro pode exibir alteração importante do contorno mandibular. E outro pode ter uma combinação de todos esses fatores. A quantidade de peso perdida, a velocidade do emagrecimento, a idade, a anatomia prévia e os tratamentos já realizados também influenciam a decisão. É por isso que duas pessoas que perderam exatamente o mesmo número de quilos podem precisar de estratégias completamente diferentes.
Também não é necessário escolher entre bioestimulador e ácido hialurônico como se fossem excludentes. Se o emagrecimento produz alterações em diferentes estruturas, dificilmente um único produto resolverá todas elas da mesma maneira. O objetivo não é simplesmente devolver ao rosto todo o volume que desapareceu — especialmente após grandes perdas ponderais, tentar compensar tudo com preenchimento pode levar a resultados artificiais. O objetivo é preservar ou recuperar harmonia facial, respeitando a nova anatomia daquele paciente.
Mais do que perguntar “qual produto devo usar?”, a pergunta mais útil é: “o que aconteceu com a minha face durante o emagrecimento?” Quando essa pergunta é respondida por meio de uma avaliação médica individualizada, fica muito mais fácil decidir se o caminho é bioestimulação, reposição seletiva de volume, tratamento da flacidez, associação de técnicas — ou simplesmente acompanhamento. A medicina estética fica melhor quando o produto deixa de ser o protagonista e a anatomia do paciente volta a ocupar esse lugar.
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Dra. Luciana Gasques é médica dermatologista, especialista em dermatologia estética.
Para leitura completa dos artigos: 1. Frank K, Guertler A, Hoffmeister V, et al. GLP-1-Induced Weight Loss and the Face: Anatomical Mechanisms and Rationale for Collagen-Stimulating and Volumizing Aesthetic Treatments. Dermatologic Surgery. 2026;52(6S):S55-S60. | 2. Franco J, Aguilera SB, Le JHTD, et al. Poly-L-Lactic Acid as a Regenerative Treatment for the Glucagon-like Peptide-1 Receptor Agonist User Population. Dermatologic Surgery. 2026;52(6S):S10-S15. | 3. Lorenc ZP, Somenek M, Nguyen TQ, et al. A Multicenter, Open-Label Study of Combined Poly-L-Lactic Acid and Hyaluronic Midface Filler Regimen Enhances Facial Harmony and Skin Quality in GLP-1 Medication Users. Aesthetic Surgery Journal. 2026;46(5):509-519.
